25/08/2025
Depois que eu parti
Depois que eu parti, ou melhor, depois que interrompi a minha vida,
voltei aos meus lugares preferidos,
aqueles lugares que sempre carregaram um pedacinho de mim,
e pude perceber que tudo continuava do mesmo jeito.
As ruas estavam as mesmas,
as árvores sopravam o mesmo vento,
o mundo seguia sem perceber a minha ausência.
A velhinha da praça não perguntou por mim,
as casas de jogos não sentiram a minha falta,
e por mais doloroso que fosse,
foi ali que percebi:
a vida não para com a ausência de um só.
Mas dentro da minha casa
ou melhor, da minha antiga casa
tudo parou.
Minha mãe, minha querida mãe,
carregava dois lutos:
o filhinho que perdeu
e a voz das ruas que a julgava:
“É aquela senhora cujo filho se matou...”
Desculpa, mãe, eu nunca quis nada disso pra senhora.
Meus irmãos aprendiam a viver com o vazio que deixei,
uma dor que não passa nunca.
E o meu irmãozinho cresceria sem sequer lembrar da minha voz,
sem lembrar do meu rosto,
nem das vezes em que eu o carreguei.
Já consigo imaginar ele vendo uma foto minha e perguntando:
“Quem é esse?”
E logo em seguida dizendo:
“Não o conheço.”
Isso acaba comigo.
Tentei fugir da dor que me destruía a cada amanhecer,
mas apenas troquei de dor.
Pensei que, com o fim, a dor acabaria,
mas cometi um erro:
joguei a minha dor em dobro
sobre minha família e todos que me amavam.
Se ao menos eu tivesse conversado com minha mãe,
se ao menos tivesse me aberto com algum estranho na rua,
e escutado aqueles conselhos que só um desconhecido é capaz de dar,
talvez meus dias ainda existissem.
Talvez meu sorriso tivesse voltado.
Talvez minha mãe carregasse aquele brilho maravilhoso nos olhos,
sorrindo como se não existisse o amanhã.
Talvez meus irmãos soubessem rir sem sentir falta,
jogar sem sentir dor.
Agora sei:
a morte não foi libertação,
foi apenas silêncio sem retorno.
E o que eu não suportava sozinho,
transformei em peso eterno para quem me amava.
Por isso, se você lê estas palavras
e sente que também não aguenta mais,
não caminhe sozinho por essa escuridão.
Não deixe o silêncio decidir por você.
Converse, grite, chore, desabafe.
Procure alguém que escute, E se um dia precisar conversar pode dá um toque