19/10/2021
Mundo Fantástico
Remake, Zé e Mojica
Por Euller Felix*
Na semana passada uma notícia deixou uma parte dos cinéfilos brasileiros atordoados, sem saber realmente o que sentir. Um possível remake de “A Meia Noite Levarei Sua Alma” de José Mojica Marins estava no horizonte da produtora de Elijah Wood, a SpectreVision. O que sentir e pensar de uma notícia dessa? De um filme da nossa cultura sendo refeito em outro país? De uma pessoa tão importante no cinema nacional como é José Mojica Marins? De uma figura tão presente no nosso imaginário como o Zé do Caixão? Tudo isso deixa qualquer cinéfilo confuso em relação aos seus sentimentos.
Não sou daquele tipo de crítico contra os remakes e releituras de filmes, muito pelo contrário, gosto bastante que haja esse movimento, vejo sempre a possibilidade de sair algo bom dali. E claro, o filme original sempre estará lá, o fato de existir ou não uma releitura não exclui e apaga a obra original. Vejo até, de certa forma, como uma homenagem ao trabalho do Mojica, que sempre foi um trabalho reconhecido internacionalmente.
“Cinema de Invenção” do Jairo Ferreira que fala sobre o cinema marginal tem uma frase que define muito bem o cinema de José Mojica Marins para mim, lá diz algo mais ou menos assim: “cada fotograma filmado por José Mojica Marins respira cinema” e eu considero impossível alguém ter assistido o “A Meia Noite Levarei Sua Alma” e não concordar com essa frase. Tudo ali é cinema na sua forma mais pura (ou impura?) possível.
Falando um pouco sobre a personagem do Zé do Caixão, é muito difícil achar alguém que não tenha em sua memória aquela imagem do homem vestido de preto e unhas grandes que aparecia na TV. Muito antes de assistir qualquer um dos filmes de Mojica já conhecíamos a figura antológica do Zé do Caixão. Depois de assistir aos filmes o fascínio pela personagem cresce ainda mais. É impossível - foi para mim - desgrudar os olhos da tela enquanto Zé do Caixão estava ali planejando fazer algo terrível, declamando sobre “o que é a vida?” e “O que é a morte?”. Principalmente depois de entender que toda essa forma representa a história do filme que iríamos logo assistir - afinal, veremos Zé do Caixão em busca da perpetuação do sangue e por consequência, continuar a sua existência. Cada fotograma, cada palavra, cada sílaba, tudo que foi feito por José Mojica Marins respira, emana, É CINEMA.
Cabe a nós esperarmos que essa possível releitura da obra do Mojica traga coisas positivas para a restauração de sua obra e claro, para a sua família, que detém todos os direitos dos personagens. No mais, a obra de Mojica sempre estará lá para que possamos assistir, existindo uma adaptação ou não.
*Cientista social, pesquisador e crítico de cinema