04/03/2021
A indústria voltada para pets está em polvorosa: nunca se consumiu tantos produtos diferenciados voltados para esse segmento. Verdade que, em comparação a outros países, ainda dispomos de poucas opções de produtos, mas estamos chegando lá.
Esse parece ser um fenômeno mundial, mas vamos nos ater a nós por aqui: o que está acontecendo? As explicações habituais dão conta desse fenômeno? Como isso atinge as diferentes camadas da população?
Os sintomas são claros: maior numero de adoções, uma enxurrada de vídeos fofinhos, engraçadinhos, hilários ou desesperados e tristes de animais “domésticos”, especialmente os eleitos: cães e gatos.
O que justif**a tudo isso? Animais sempre foram companheiros e valorizados, mas agora parecem estar ocupando o “centro do palco” dos afetos e preocupações de muitos. É verdade, os animais não nos questionam e não nos cobram, nos oferecem afeto e suporte emocional, mesmo que eles não saibam muito bem disso.
Estamos carentes, divididos, com muito medo do futuro e sem muitas perspectivas: os filhos nos apavoram porque estamos vendo que não estamos dando conta de fazer por eles o que gostaríamos ou que achamos que havíamos planejado, os animais “se contentam” com pouco, adoram passear (e nos levam junto), brincar de bolinha ou varinha, comer ração e uns “agradinhos” aqui e ali, e dormir juntinho, nos dando a sensação de aconchego e nos recompensando por trata-los bem. Os animais adotados, então, nos permitem ainda uma sensação de um certo “heroísmo”, somos responsáveis pela transformação – para muito melhor – da vidinha desse bichinho, nos sentimos fazendo “o bem” e resgatando alguém (sim, alguém mesmo). A mudança de terminologia de “dono” para “tutor” reflete bem esse espírito. E isso permeia as diversas classes sociais.
Comprar um pet se tornou “pecaminoso” para muitos: diante da possibilidade de resgatar um animal, a compra é entendida como egoísta e “fora de moda”, sendo censurada e vilipendiada nas redes sociais e no dia a dia das pessoas.
Na verdade, um pet cumpre hoje um papel fundamental na vida de muitas pessoas, um papel que lhes foi atribuído pela vida moderna e pelo momento em que estamos vivendo: ele é o esteio e a recompensa que todo o restante nos nega. Eles não questionam, são previsíveis e dão trabalho suficiente para que sintamos que estamos cuidando de alguém e sendo necessários. E nesse caos em que nos encontramos, eles são um porto seguro.
É claro que existem aqueles que, passado o momento, acabam desistindo do seu animal de estimação, já que ele “cumpriu sua função” e agora se tornou um asset que dá mais trabalho e despesa do que traz benefícios. Mas uma boa parte cria vínculos estreitos e quase indissolúveis com seu animalzinho. E a indústria pet está aí e é chamada para contribuir.
A indústria pet deve estar atenta a estas mudanças fundamentais: valorizar mais os SRD sem deixar os “de raça” de lado, mostrar uma atuação “social” e contribuir para o bem-estar animal. E valorizar cada vez mais o laço de viés humano que se estabelece entre o pet e seu “tutor”. Não basta mais vender produtos pet: é preciso ter uma “ação social” de resgate, mostrar que “se importa” e valorizar o lado emocional do relacionamento com o animal. Não basta apenas cuidar da saúde do pet, mas é preciso também cuidar de seu prazer (e valorizar o contentamento do tutor ao ver que o pet “está feliz”). Estudos e pesquisas ajudam a mostrar que é assim que as marcas vão crescer, como aliadas na “criação e cuidado” desses seres que passamos a ter a nosso lado e que não queremos mais ver como “simples” animais.
OBS: sou tutora de 3 pets e na família temos 10. Amamos todos e fazemos parte dos "loucos por pets"