31/12/2025
Quando o ódio adoece uma nação
Reflexões de uma brasileira de 84 anos ao encerrar 2025
Vera Pessoa
Tenho 84 anos.
Já vi crises, ditaduras, anistias, mentiras políticas, disputas ideológicas e decepções profundas.
Nunca vi, porém, o Brasil adoecer desse modo: pelo ódio.
Vejo pessoas desejando a morte de outras.
Vejo frases ditas sem pudor: “que morra”, “que apodreça”, “lugar é na prisão”, “não haverá anistia”.
Vejo adultos tratando o sofrimento humano como vingança moral.
Isso não é justiça.
Isso é desumanização.
O mais triste é reconhecer esses discursos em pessoas conhecidas — algumas que trabalharam comigo, algumas que falam em democracia, amor e direitos humanos.
Muitas sem fé, sem transcendência, sem freio moral interno.
Esquecem — ou fingem esquecer — que o Brasil já viveu diversas anistias, inclusive para crimes gravíssimos.
Esquecem — ou escolhem esquecer — quem é Lula, sua história, seus perdões recebidos, seus pactos políticos.
Esquecem — ou escolhem esquecer — as destruições cometidas pelo PT, Partido dos Trabalhadores.
Encerrar 2025 sob essa nuvem de ódio é profundamente doloroso.
Porque quando uma nação passa a desejar a morte do outro, ela já perdeu algo essencial da alma.
Não escrevo por partido.
Escrevo por humanidade.
Por memória.
Por fé.
E por responsabilidade moral diante da história.
Este texto não ataca, não provoca, não incita.
Ele expõe o abismo.
A. – O que a psicologia, a filosofia e a fé dizem sobre esse tempo
Freud diria que estamos assistindo ao retorno do instinto de morte (Thanatos).
O prazer na destruição do outro, a humilhação travestida de justiça, a punição extrema celebrada como virtude — tudo isso revela a projeção da própria agressividade reprimida.
Quando o ódio vira discurso público, algo grave acontece:
o superego coletivo entra em colapso.
A crueldade deixa de causar vergonha.
O mal passa a ser justificado como bem.
Os existencialistas foram ainda mais precisos.
Hannah Arendt falou da banalidade do mal: pessoas comuns repetindo discursos cruéis sem pensar, apenas obedecendo narrativas dominantes.
Albert Camus alertou:
“O homem revoltado que perde a compaixão torna-se aquilo que combate.”
Quando o ódio substitui o pensamento, a revolta perde dignidade.
Jean-Paul Sartre lembraria que o ódio coletivo é, muitas vezes, um atalho existencial: em vez de enfrentar o vazio, a frustração e a responsabilidade pela própria vida, escolhe-se um inimigo para odiar.
1. – O ódio político costuma ser falta de sentido existencial disfarçada de virtude moral.
A psicologia humanista, com Carl Rogers e Abraham Maslow, é clara:
quem desumaniza o outro está profundamente desconectado de si.
O ódio em massa nasce da frustração não elaborada, da inveja, do medo e da necessidade infantil de pertencer a uma manada moral.
2. – Pessoas que desejam a destruição do outro não amadureceram emocionalmente.
Trocaram o diálogo pelo ataque.
A ética pela raiva.
A consciência pela obediência cega.
B. – À luz da Palavra de Deus
Aqui não há ambiguidade.
“Quem odeia seu irmão já está em trevas.” (1 João 2:11)
“A ira do homem não produz a justiça de Deus.” (Tiago 1:20)
“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.” (Mateus 5)
Deus não legitima o ódio, ainda que ele venha vestido de discurso político, ideológico ou moral.
Desejar ver as dores do outro, a morte do outro, celebrar o sofrimento alheio, negar o perdão e a misericórdia
não vem de Deus.
Vem do endurecimento do coração, da perda do temor, da recusa da graça.
C. – Uma palavra final
O que me dói não é apenas a crise política.
O que me dói é assistir a uma crise moral e espiritual.
O que está me doendo é ver pessoas que amo perdidas em si mesmas e
nas maldades que vêm das trevas:
destruições que vieram nas nuvens de gafanhotos que saíram das profundezas do inferno.
Quando o ódio vira linguagem cotidiana,
quando a morte do outro é celebrada,
quando o perdão é tratado como crime,
uma nação se afasta perigosamente daquilo que a mantém humana.
Escrevo não para convencer.
Escrevo para testemunhar.
Porque calar, neste tempo,
também seria uma forma de consentimento.
E porque, mesmo no fim do túnel,
ainda creio:
a luz existe — mas ela exige coragem moral para ser buscada.
São Paulo, 30 de dezembro de 2025