04/06/2026
No silêncio da noite no deserto do Atacama, o único barulho que se ouvia eram os desejos daqueles que olhavam pro céu. Vanessa lembra bem desse dia, embora nunca tenha falado sobre isso com ninguém.
Ela e o pai, sentados, contemplando emocionados o que a natureza tem de mais luminoso. Quando passa, de repente, aquela que só se revela pros mais atentos: uma estrela cadente. Vanessa faz um pedido. Ela sabe o que quer, ela sente, e quando a gente pede alguma coisa, geralmente, é porque está pronto pra vivê-la.
Eu quero me apaixonar, ela diz bem na hora em que a estrela passa, mas como nada pra ela é efêmero ou passageiro, além da estrela que revelou seu desejo, acho que o que ela queria mesmo, de verdade, era viver um amor.
Não fazia muito o seu tipo encontrar alguém perdido numa festa da cidade. A pessoa da sua vida não chegaria sob holofotes, fazendo alarde. Combinava mais com a sua delicadeza, reconhecer alguém sentado numa mesa, estudando, na biblioteca da faculdade.
No silêncio daquele dia, dividindo aquela mesa imensa, estavam os dois alunos de Engenharia, a Vanessa e o Henrique.
Bem, se ela queria que o Henrique a notasse, o desejo foi concedido.
Henrique é o seu primeiro namorado, e a Vanessa f**a com um certo medo de, na relação com o outro, se perder de quem ela é. Porque ela sempre foi a garota independente, coerente e correta. Imagina só se abrir, entregar uma parte dela a ponto de lá na frente nem se reconhecer. Vanessa é firme nas suas ideias, justa, honesta, uma pessoa em linha reta.
Manoel de Barros dizia que uma reta é uma curva que não sonha e aqui eu preciso contradizer o poeta. Porque a Vanessa não apenas sonha, br**ca, imagina, como inspira e convida o outro a sonhar. A retidão dela funciona como uma seta pra quem precisa se encontrar.
Vanessa não é a primeira namorada do Henrique, mas é com certeza a primeira pessoa pra quem ele olha e pensa: eu quero ser alguém de quem ela possa se orgulhar. E, pra isso, ele precisaria se achar.
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