28/04/2026
Série de Autorretratos Híbridos: Odoyá, Iemanjá.
Nas águas que me atravessam, retorno.
Não como quem chega,
mas como quem finalmente reconhece o caminho de volta.
Esta série nasce do encontro entre o corpo e a memória,
entre o erro e o aprendizado,
entre o silêncio que herdei
e a voz que agora escolho escutar.
Por muito tempo, fui parte da distância.
Hoje, me coloco como ponte.
Crio com o que tenho,
meu corpo, minha história, minha ausência de recursos,
e também com aquilo que invento para existir:
coroas que não pude moldar com as mãos,
águas que não consegui conter no estúdio,
imagens que a tecnologia me ajuda a sonhar.
Mas não é sobre a máquina.
É sobre o gesto.
Sobre a urgência de produzir imagem
quando historicamente nos negaram o espelho,
quando tentaram apagar nossos símbolos,
nossos deuses, nossos rostos.
Como nos lembra Lélia Gonzalez,
há uma amefricanidade pulsando em nós
uma herança viva que insiste em permanecer,
mesmo quando nos ensinaram a esquecê-la.
E como ecoa em bell hooks,
olhar é também um ato político.
Criar imagens de nós mesmos
é romper com o lugar de objeto
e reivindicar o direito de narrar.
Essa série é, então, um pedido e um agradecimento.
Um gesto de reparo íntimo e coletivo.
Peço licença.
Agradeço o acolhimento.
E sigo aprendendo a não desviar o olhar.
Porque produzir imagem preta periférica
é mais do que estética
é reexistência.
É mar que não se contém.
É memória que não se afoga.
É corpo que volta a ser sagrado.
Odoyá!