21/03/2026
Problema sempre encontra caminho.
Chega sem pedir licença, bate em hora ruim, atravessa os planos da semana, desarruma o humor, muda o gosto do café, pesa no corpo antes mesmo de ganhar nome. Ninguém passa pela vida sem conhecer esse tipo de visita. O erro começa quando a gente abre a casa inteira por dentro e deixa a aflição circular como dona do lugar.
Uma dificuldade pede resposta. Não pede altar.
Quando a dor aparece, o coração já quer oferecer tudo: pensamento, sono, paz, imaginação, futuro. Vai dando cadeira, coberta, conversa longa, e logo o problema deixa de ser um episódio para virar companhia fixa. Senta na mesa, opina na esperança, interfere na fé, estraga o silêncio. Aos poucos, a pessoa já não percebe, mas começa a organizar os dias em torno daquilo que a feriu.
Só que nem todo peso merece morada.
Algumas coisas precisam ser tratadas, sim. Com coragem, com lucidez, com firmeza. Outras precisam apenas ser impedidas de se espalhar. Porque uma dor, quando não encontra limite, ocupa mais espaço do que recebeu. Cresce dentro da cabeça, altera o olhar, rouba a leveza e convence a alma de que nada mais existe além daquele aperto.
Viver também exige esse gesto bonito e difícil de selecionar o que entra e o que não f**a.
O problema pode bater à porta, mas não precisa aprender o caminho dos seus cômodos mais íntimos. Não precisa dormir no seu travesseiro. Não precisa sentar no centro da sua fé. Há uma dignidade funda em sofrer sem se entregar por inteiro ao sofrimento. Em reconhecer o peso da hora sem permitir que ele defina toda a paisagem da vida.
Cora sabia dessas severidades mansas. Sabia que força não é ausência de dor. Força, muitas vezes, é só isto: não tratar a aflição como rainha.
Respire. Faça o que puder. Resolva o que for possível. Ore pelo que ultrapassa a sua mão. E preserve dentro de si um pequeno território de paz que problema algum mereça possuir. É desse lugar guardado que nasce a coragem de continuar.