21/07/2026
Duas conferências de Claude Lévi-Strauss revelam a formação e a maturidade de um dos maiores antropólogos do século XX
Em De Montaigne a Montaigne, pensador francês revisita o legado do autor dos Ensaios e reflete sobre alteridade, etnologia e a construção da antropologia moderna
Separadas por mais de meio século, duas conferências de Claude Lévi-Strauss delimitam um arco singular de sua trajetória intelectual. Em De Montaigne a Montaigne, lançamento da Editora Unesp, o antropólogo francês aproxima dois momentos decisivos de sua obra: o primeiro, em 1937, pouco depois de suas expedições pelo Brasil central; o segundo, em 1992, quando já era reconhecido como um dos maiores nomes das ciências humanas. Reunidos pela primeira vez em português, os textos revelam a permanência de um diálogo intelectual que acompanhou toda a sua vida: o encontro com o pensamento de Michel de Montaigne.
Na conferência de 1937, dirigida a um público de militantes sindicais em Paris, Lévi-Strauss questiona a ideia de superioridade da civilização ocidental e defende a etnologia como instrumento para compreender a diversidade das sociedades humanas. O texto registra um momento raro de sua produção, anterior à consolidação do estruturalismo, quando o jovem pesquisador ainda elaborava as bases de uma crítica ao evolucionismo linear e aos pressupostos do pensamento colonial.
Mais de cinco décadas depois, a conferência de 1992 retoma essas inquietações sob outra perspectiva. Ao refletir sobre os quinhentos anos da chegada europeia à América e o quarto centenário da morte de Montaigne, Lévi-Strauss identifica no humanista francês uma das origens da atitude antropológica moderna. Ao confrontar os relatos de viajantes como Jean de Léry e André Thevet, mostra como o encontro com os povos americanos obrigou a Europa a rever suas próprias certezas e inaugurou uma nova forma de pensar a alteridade.
Sobre o autor – Claude Lévi-Strauss (1908-2009) foi um antropólogo e filósofo francês, fundador da antropologia estrutural. Sua obra, centrada na análise dos mitos e das estruturas de parentesco, revolucionou as ciências humanas no século XX ao investigar as leis universais do espírito humano.