08/01/2026
CARTA ABERTA CONTRA O RACISMO E A XENOFOBIA NO SUL DO BRASIL
Fazem três anos que a Esplanada dos Ministérios em Brasília, centro político do Brasil. Em 8 de janeiro de 2023 a capital federal foi vandalizada numa ação promovida por grupos criminosos que só agora, em 2025, começaram a ser responsabilizados pelos crimes de terrorismo armado contra o Estado Democrático de Direitos. Essa é uma prática comum conhecida em contextos de regimes de exceção, de governo autoritários, ditaduras.
Quem conhece os relatórios da Comissão Nacional da Verdade, particularmente as violações praticadas envolvendo universidades, movimentos sociais, moradias e festas estudantis, sabe bem desses protocolos que violam direitos e a dignidade humana, já que esse tipo de vandalismo e depredação de patrimônios privados e públicos, sempre comuns como prática do fascismo e verdeamarelismo, neles muitas vezes também se reconhece o racismo, a xenofobia e todos os tipos de intolerâncias, vindos de pessoas e grupos incapazes da convivência com diferenças, outridades, auteridades, revelando narcisismos, individualismo exacerbado, medo da diferença.
O que assistimos acontecer em escala nacional através da mídia e meios de comunicação, também acontece na microescala, na necropolítica, em todos os cantos do país, nas periferias e interiores, quase sempre sem a proteção das instituições de Estado e sem notícia pelos meios de comunicação, o que favorece impunidades, acobertamentos, omissões. Num país onde a ação preventiva inexiste, essas intolerâncias de raça, origem geográf**a, classe, gênero e religião ganham força, e tentam se constituir como regra, poder paralelo ao Estado Democrático de Direitos.
No último 4 de dezembro, ao voltar à cidade de Pelotas – onde realizo doutoramento em patrimônio cultural afrodescendente – depois de uma viagem de três meses para realização de uma pesquisa de campo, encontrei todas as minhas coisas reviradas, vandalizadas, quarto de despejo, cenário de guerra, no local onde vivi e onde tive a alegria de conviver com projetos sociais de importante valor municipal (que abracei de imediato) em termos de assistência social, soberania alimentar, centro cultural, de cuidados com a dignidade humana, onde cozinhei todos os sábados ao longo de cinco meses desde abril, e onde enfrentei – infelizmente – diversas hostilidades, intolerâncias de natureza racial, geográf**a, curiosidades mórbidas sobre minha orientação sexual e identidade de gênero (que mais diziam dos sujeitos em dúvida do que de minha pessoa), e também ameaças de agressão física por motivos fúteis motivadas por intrigas vindas sempre de uma mesma pessoa (o fofoqueiro do lugar) e, mesmo desmascarando-o em assembleia, ele continuou nas manipulações e provocações, agindo nos termos em que o Freud chamou de ‘passivo-agressivo’ nos comportamentos em busca de divisão para controle, receoso de que pudesse eu estar ali em busca de ser visto pelo andar de cima da política partidária, já que sua razão de estar ali, diferente da minha, possivelmente envolve o desejo de ser visto, reconhecido. Deveria ser desligado do partido onde está, já que nenhum partido que defende a democracia é – em tese – conivente com esse tipo de comportamento facilmente reconhecível como fascista, violento e autoritário, narcísico.
Uma das razões dessas violências envolveu o meu trabalho de ceramista, desde que fiz uma peça em cerâmica e passei a aglutinar colaboradores na construção de um projeto cultural coletivo para a cidade de Pelotas. A peça em cerâmica eu a encontrei no exato local deixado por mim, porém, suja de uma substância vermelha que se assemelhava a sangue. Quem vandalizou minhas coisas tinha como alvo o meu trabalho e, sujando-a de sangue, sinalizou desejo de violência, de agressão, ameaça explícita e latente.
Curiosamente, numa cidade nascida do sangue e do barro, das charqueadas e olarias, sendo eu um trabalhador no barro e um homem negro, encontro minha peça em cerâmica suja de algo que se assemelhava a sangue. E isso diz muito da psiquê coletiva do lugar, de ações motivadas pelo inconsciente aflorado de pessoas que, mesmo viventes no século XXI, mantém seus espíritos enraizados na opulenta cultura originária e escravocrata em torno do charque, do ‘barro e sangue’ (parafraseando o título da tese de doutorado em história de Ester J. B. Gutierrez), e agem com pessoas migrantes como se tivéssemos que lhes abaixar a cabeça.
Faz tempo que defendo que a principal política pública nacional de saúde coletiva deveria tornar obrigatório a todos os brasileiros, particularmente esses de quem falo – homens supremacistas e/ou brancos de masculinidades frágeis e tóxicas – a fazerem terapia, acompanhamento psicológico, psiquiátrico.
Todas as medidas protetivas, legais, cabíveis, foram tomadas. E a decisão em tornar público meu protesto e o meu trabalho em cerâmica se explica – não pelo fato de ter visibilidade (já que sou um cidadão avesso às explorações midiáticas de conflitos) – mas porque as lideranças no local ao invés de rechaçarem e se posicionarem contra esses comportamentos autoritários, destrutivos, animalizados, irracionais, desconectivos, quiseram que eu dividisse com o ‘oculto’ vândalo a responsabilidade por essa covardia, agressão e ameaça. Foi como se fosse ‘culpa’ minha o que de errado foi com meu trabalho praticado.
É aquela regra aristotélica em que entre ‘iguais’ o direito e, entre desiguais e diferentes, a guerra e violência. Também torno pública a situação porque, sendo a motivação desse tipo de racismo e xenofobia o meu trabalho em cerâmica e o projeto que desenvolvo, se faz necessário tornar público para evitar plágio, sequestro de autoria, sempre seguidos pela transferência da autoria para outrem, nessa mania cornobrasileira de promoção de triangulações, paralelismos, inveja desmedida, ciúmes, gente que se une em grupo não para edif**ar mundos possíveis e utopias, mas para fazerem gangue e quadrilha, inimigos da paz e do respeito.
Podem até tentar, mas não vão me parar nem me fazer deixar de lutar e construir o mundo que acredito! Não naturalizo ou normalizo violências nem ameaças!
Fábio Brasileiro
Pelotas, 08 de janeiro de 2026.