15/09/2026
“NINGUÉM É OBRIGADO A ACREDITAR NUMA PESSOA QUE SE DESACREDITA”
Por: YADHISTÓTELES
Essa crónica tem o patrocínio da: Agrogebil.
Há uma coisa curiosa que eu noto nas relações humanas: queremos que os outros acreditem em nós mesmo quando fazemos um trabalho extraordinário para lhes ensinar a duvidar. É quase uma espécie de exigência moderna: “Confia em mim.” E a pergunta inconveniente é: porquê?
Porquê confiar?
Porque pediste?
Porque somos amigos?
Porque somos casados?
Porque somos irmãos?
Porque trabalhamos juntos?
Porque disseste que desta vez vai ser diferente?
Desde quando uma promessa passou a valer mais do que o comportamento de quem a pronuncia?
É engraçado como algumas pessoas tratam a confiança como um direito adquirido. Mentem, desaparecem, falham, prometem, voltam a falhar e, quando percebem que já ninguém acredita nelas, ficam ofendidas. A ofensa chega antes da reflexão. “Como é que podes não confiar em mim?” Ora, da mesma maneira que tu aprendeste a não merecer confiança: através de experiências.
Há uma certa injustiça em culpar a memória dos outros pelos nossos próprios actos.
Imagina um casal. Duas pessoas entram numa igreja, num altar, numa cerimónia ou simplesmente numa decisão íntima e prometem ficar juntas na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença. Bonito. Poético. Quase cinematográfico. Mas o casamento não acontece apenas no altar. O problema começa quando a realidade aparece sem maquilhagem.
Porque é fácil prometer companhia na pobreza quando ainda não sabemos o preço da pobreza. É fácil prometer companhia na doença quando ainda estamos saudáveis. É fácil jurar fidelidade quando ninguém colocou a relação à prova.
E se um dos dois passa anos sem procurar trabalho com seriedade, apesar de ter condições para procurar? O outro deve continuar a carregar tudo porque existe uma promessa feita diante do altar?
E se uma mulher decide empreender, mas não leva o próprio negócio a sério, não estuda o mercado, não procura melhorar, não cumpre compromissos e trata o projecto como um hobby enquanto espera que o marido continue a financiar o sonho? O amor transforma automaticamente a irresponsabilidade em investimento?
E se um dos dois se recusa a estudar, a formar-se, a adquirir novas competências e depois acusa o parceiro de não acreditar no seu potencial? Em que momento acreditar no potencial de alguém passa a significar ignorar a ausência de esforço?
Há uma diferença entre atravessar uma fase difícil e transformar a dificuldade numa residência permanente.
Ninguém está a dizer que uma pessoa desempregada é preguiçosa. Eu seria a última pessoa a dizer isso.
Ninguém está a dizer que quem fracassa num negócio não merece apoio.
Ninguém está a dizer que uma doença emocional é falta de carácter.
A questão é outra: o que estamos realmente dispostos a fazer quando dizemos que queremos mudar?
Porque uma pessoa pode estar deprimida e precisar de ajuda. Pode estar doente e precisar de tratamento. Pode estar emocionalmente destruída e precisar de tempo. Tudo isso merece compreensão.
Mas e quando a própria pessoa recusa sistematicamente procurar ajuda?
E quando ignora os conselhos para fazer terapia?
E quando transforma a própria doença numa desculpa para não assumir qualquer responsabilidade?
E quando começa a tratar agressivamente quem tenta aproximar-se?
E quando promete procurar ajuda, promete mudar, promete controlar o comportamento e, depois, tudo volta ao mesmo?
Em que momento a compreensão começa a ser confundida com autorização para continuar a destruir?
Essa é uma pergunta perigosa porque pode ser aplicada aos dois lados. Homens podem fazer isso. Mulheres também. A doença não escolhe género, mas a responsabilidade também não deveria escolher.
Uma pessoa pode estar doente e continuar responsável por procurar tratamento. Pode estar ferida e continuar responsável por não ferir deliberadamente quem está ao seu lado. Pode precisar de ajuda sem transformar o outro em enfermeiro, psicólogo, terapeuta, s**o de pancadas, banco, salvador e funcionário emocional em regime de vinte e quatro horas.
O amor pode acompanhar uma pessoa até à porta de um consultório.
Não pode obrigá-la a entrar.
E isso vale para muito mais do que relacionamentos.
Mulheres abandonam homens. Homens abandonam mulheres. Pessoas que juraram envelhecer juntas começam a comportar-se como se tivessem sido obrigadas a participar num concurso de resistência emocional. Depois aparece a narrativa: “Ele mudou.” “Ela mudou.”
Mas será que o problema foi a mudança?
E se o problema tiver sido a insistência em continuar ao lado de alguém que já demonstrava, há muito tempo, que não queria cumprir aquilo que tinha prometido?
Porque também existe uma forma bastante confortável de contar histórias: apresentar o abandonado como vítima e o que abandona como vilão. Só que a vida raramente respeita argumentos tão organizados.
Há abandonos que são crueldade.
Há abandonos que são cobardia.
Há abandonos que são libertação.
Há abandonos que são simplesmente a consequência de alguém ter passado demasiado tempo a pedir ao outro que mudasse.
E se algumas pessoas não abandonassem relacionamentos por falta de amor, mas por excesso de desgaste?
A família também conhece este fenómeno. Há irmãos que passam a vida a dizer que precisam de apoio, mas fazem pouco para sair do lugar onde estão.
Eu próprio posso falar disso com alguma propriedade por estar nos Estados e ter os meus irmãos em Angola.
Existe quem como eu tenha uma mão estendida e, do outro lado, encontre uma pessoa determinada a continuar deitada.
Em que momento ajudar deixa de ser apoio e começa a ser uma forma elegante de alimentar a desistência?
Será que amar um irmão significa ajudá-lo sempre?
Ou significa, em algum momento, perguntar por que razão ele não está disposto a ajudar-se?
É uma pergunta desagradável, porque fomos educados para acreditar que família é sinónimo de obrigação. Só que parentesco não fabrica carácter. O sangue pode criar uma relação biológica; não garante responsabilidade, gratidão, disciplina ou vontade de crescer.
Também não existe nenhuma cláusula genética que determine que um irmão deve passar a vida inteira a salvar outro irmão das consequências das próprias escolhas.
E quando alguém está disposto a ajudar financeiramente, emocionalmente ou profissionalmente, mas percebe que o outro não demonstra qualquer vontade de construir a própria saída, o que deve fazer?
Continuar?
Parar?
Esperar?
Intervir?
Até onde vai o amor quando a outra pessoa não participa da própria salvação?
E talvez a pergunta mais desconfortável seja esta: será que ajudar alguém contra a vontade de mudar é realmente ajudar?
Na amizade, o espectáculo é ainda mais curioso. Há amigos que querem a tua presença nos momentos difíceis, mas desaparecem quando és tu quem precisa. Há quem diga “estou contigo” com a mesma facilidade com que se diz “bom dia”. O problema é que algumas amizades têm frases de milhões e comportamentos de trocos.
Depois de algum tempo, descobres que não perdeste um amigo.
Perdeste uma expectativa.
E isso dói mais porque somos nós que temos de admitir que confundimos proximidade com lealdade.
No mundo profissional, a coisa ganha uma gravata e passa a chamar-se “falta de oportunidade”. A pessoa recebe uma oportunidade, falha. Recebe outra, falha novamente. Recebe uma terceira, chega atrasada. Na quarta, não cumpre. Na quinta, alguém decide escolher outra pessoa.
E o profissional pergunta: “Por que nunca acreditam em mim?”
Mas será que o mercado deixou de acreditar ou simplesmente começou a fazer contas?
Quantas oportunidades uma pessoa precisa receber antes de perceber que oportunidade também é uma responsabilidade?
E existe ainda um território particularmente interessante: o talento.
Há pessoas que dizem querer ser grandes artistas, escritores, músicos, poetas, empresários, atletas. Falam do sonho com uma convicção quase religiosa. Mas quando chega a hora de estudar, treinar, pesquisar, ouvir críticas, melhorar a técnica, chegar preparado, cumprir horários, investir no próprio desenvolvimento, desaparecem.
Querem o resultado do compromisso sem experimentar o incómodo do compromisso.
E depois dizem que ninguém acredita nelas.
Será que ninguém acredita no talento ou o talento é que deixou de apresentar provas?
Isto acontece até na poesia.
Um poeta pode reclamar da falta de público enquanto não observa o trabalho de outros poetas de sucesso. Pode reclamar da falta de oportunidades enquanto rejeita dar o seu apoio aos espaços que aparecem. Pode reclamar da falta de investimento enquanto não investe um minuto no próprio desenvolvimento artístico. Pode querer prémios sem querer melhorar. Pode querer convites para declamar em actividades sem querer ensaiar, sem querer gravar vídeos para alimentar as suas redes sociais. Pode querer reconhecimento sem se esforçar para tal.
E quando alguém investe dinheiro, tempo, estrutura, divulgação e oportunidades para criar condições de crescimento, será que esse investimento deve continuar indefinidamente quando os próprios beneficiários parecem não demonstrar interesse proporcional pela evolução daquilo que dizem amar?
A pergunta não é simpática.
Mas desde quando uma pergunta precisa ser simpática para ser necessária?
Há uma diferença enorme entre alguém que ainda não conseguiu e alguém que não está disposto a fazer o necessário para conseguir. O primeiro merece tempo. O segundo merece uma pergunta.
E a pergunta não é “como posso ajudar-te?”.
É:
“O que estás disposto a fazer por ti?”
Porque existe um limite para aquilo que podemos fazer por outra pessoa. Podemos abrir uma porta, mas não podemos obrigá-la a atravessar. Podemos pagar a entrada, mas não podemos obrigá-la a assistir ao espectáculo.
Podemos oferecer um palco, mas não podemos fabricar público para quem não quer melhorar a própria performance.
Podemos indicar um terapeuta.
Não podemos fazer terapia pela pessoa.
Podemos pagar uma formação.
Não podemos estudar por ela.
Podemos financiar um negócio.
Não podemos trabalhar por ela.
Podemos arranjar uma oportunidade profissional.
Não podemos obrigá-la a aproveitá-la.
Podemos acreditar num poeta, no meu caso como produtor de eventos literários e agente de artistas, mas não podemos ensaiar o poema por ele.
E isto é particularmente desconfortável quando falamos de pessoas nas quais acreditamos.
Porque acreditar em alguém também pode ser uma forma de vaidade. Gostamos de pensar que conseguimos descobrir talentos escondidos, salvar projectos, transformar pessoas, mudar destinos. Às vezes, não estamos apenas a ajudar alguém. Estamos a tentar provar a nós próprios que a nossa fé naquela pessoa estava certa.
E se não estiver?
Quanto dinheiro estamos dispostos a perder para não admitir que escolhemos mal?
Quanto tempo?
Quantas oportunidades?
Quantas desculpas?
Quantas promessas?
Quantas vezes precisamos ouvir “agora vai” antes de perceber que o “agora” daquela pessoa já dura há dez anos?
Há uma crueldade particular em descobrir que alguém não quer aquilo que nós queremos para essa pessoa.
Tu podes enxergar um grande artista numa pessoa que não quer ser artista.
Podes enxergar um excelente profissional em alguém que não quer trabalhar.
Podes enxergar um grande homem numa pessoa que insiste em comportar-se como um menino.
Podes enxergar uma grande mulher em alguém que destrói continuamente aquilo que poderia construir.
Podes enxergar futuro onde a própria pessoa já se habituou a morar no passado.
E quem está errado?
Quem vê possibilidades demais?
Ou quem já desistiu de si próprio?
Há também uma pergunta ainda mais incómoda: será que temos o direito de retirar o nosso investimento de alguém quando percebemos que essa pessoa não está a fazer a sua parte?
Ou será que, depois de ajudarmos alguém durante muito tempo, passamos a acreditar que somos moralmente obrigados a continuar?
A sociedade gosta muito de falar sobre solidariedade, mas fala pouco sobre reciprocidade. Celebramos quem dá e criticamos quem deixa de dar, como se dar fosse uma obrigação eterna e receber fosse um direito constitucional.
Mas até a generosidade pode cansar.
Até a paciência pode acabar.
Até a fé pode pedir reforma.
E quando alguém diz “já não acredito em ti”, a frase pode não ser uma sentença. Pode ser o resultado de uma longa contabilidade que nunca tivemos coragem de fazer.
No fundo, a questão não é saber se alguém merece uma segunda oportunidade. Quase todos nós precisamos de uma.
A questão é saber o que aconteceu depois da primeira.
Porque pedir outra oportunidade é humano.
Pedir uma terceira também pode ser.
Transformar todas as oportunidades numa colecção de promessas quebradas e depois acusar os outros de falta de fé já é outra coisa.
Curiosamente passamos a vida preocupados com a reputação que temos diante dos outros, enquanto destruímos silenciosamente a reputação que temos diante de nós mesmos.
Quantas vezes prometeste a ti próprio que irias mudar?
Quantas vezes quebraste essa promessa?
Quando foi que começaste a deixar de acreditar em ti?
E se a pessoa que mais precisa recuperar a tua confiança não for o teu marido, a tua mulher, o teu irmão, o teu amigo, o teu colega ou o teu público?
E se fores tu?
Algumas pessoas exigem tanto que os outros acreditem nelas porque, enquanto alguém acreditar, ainda não precisam de enfrentar a possibilidade de que já não acreditam em si mesmas.
E isso é uma coisa que nenhuma declaração de amor, nenhum discurso motivacional, nenhum pedido de desculpas e nenhuma promessa bonita consegue resolver.
Há momentos em que a vida não está a perguntar se acreditamos em alguém.
Está simplesmente a perguntar:
Depois de tudo o que essa pessoa fez, que razão concreta ainda tens para acreditar?